Parabéns, Elton Saldanha

Por Antônio Augusto Fagundes


Ele era um guri debruçado sobre as margens do Rio Uruguai, que ele ama tanto. Pescador de lambaris e de traíras, na realidade ele era mais um pescador de sonhos que iam amadurecendo enquanto as águas do rio refletiam em seus olhos gateados. Quando guri, conheceu o campo onde nasceu e chegou a trabalhar em lavoura de arroz. Cruza de famílias pobres e ricas, nobres e plebéias, tudo misturado, o Piá poderia ser mais um trabalhador rural dos muitos que andam sem futuro pelos descaminhos do Rio Grande. Mas não: um dia, em Itaqui, ainda adolescente, conheceu o violão e foi amor à primeira vista. Todos aqueles sonhos de beira de rio que estavam mergulhados voltaram à tona, brilhantes como as escamas dos peixes que o Piá puxava da água. Sim, que o violão é mágico. Na realidade, ninguém tem um violão, o violão é que tem alguns escolhidos, alguns eleitos. O violão tem preferência e desdém, amores contrariados – ou não. Quando abraçou o violão pela primeira vez, Elton Benício Escobar Saldanha, o Piá de Itaqui, sentiu que tinha encontrado seu verdadeiro amor. O seu único amor. Chegando a Porto Alegre, onde a orogenia dos festivais começava a sacudir o Rio Grande, o Piá se juntou a outro itaquiense muito especial, Juarez Bitencourt, o chucho paraguaio, bom violão, boa voz e um repertório mais latino-americano que brasileiro. E desfilaram pelos bares da noite, pelas casas de música regionalista gauchesca e, claro, pelos festivais, amadurecendo canções, amizades e amores, que ninguém é de ferro…

E a poesia de Elton Saldanha amadureceu. Com a gradual extinção da grande geração dos poetas gauchescos, honra e glória da estância da poesia crioula, alguém pensaria que o verso gauchesco estava condenado irremediavelmente. A causa mortis seria o desconhecimento dos usos campeiros dos poetas de agora, que não foram guris de campanha. Mas não: cedo ficou evidente que os grandes poetas de ontem são os grandes letristas de hoje das canções nativistas.
E são muitos, estes, “rebentando o laço”. Entre eles, tenho destacado sempre como poeta(afora seu valor como compositor e intérprete)Elton Saldanha. Que baita poeta! Leiam a letra de Os Cardeais, de Baguala, de A Primeira Vez. E o que é a facilidade que o Elton tem para escrever estribilhos!… Sim, não foi em vão que ele pescou tantos sonhos esverdeados nas águas do Rio Uruguai em Itaqui. Agora tudo volta, não na linha de um anzol, mas nas cordas do violão. No dia 21 de julho, o Elton comemorou aniversário como gosta, rodeado de amigos e de mulheres bonitas. Quando me perguntam que idade tem o Elton Saldanha, eu sempre respondo: todas. E nenhuma. Sim, que o Piá é um eterno guri que se recusa a crescer. Sim, o Piá é um sábio guarani que branqueou as melenas entre filtros e poções mágicas, pajé e mrubichá, feiticeiro e cacique. Que o Deus crioulo do pago dê muitos anos de vida sem calendário a Elton Saldanha, porque nós precisamos da sua arte mágica, do seu talento, do seu inato gauchismo, da sua ternura, da sua capacidade de dar ou de não amar. Os amigos que bateram o estribo com Elton Saldanha pelos caminhos da América precisam dele. As mulheres bonitas que um dia botaram um pouco de luz no seu coração reclamam de sua poesia. Mas Elton Saldanha está aí, eterno e sempre guri, Deus seja louvado.

 
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